Rei Édipo: culpa e existência

Prof.ª Dr.ª Gilda Naécia Maciel de Barros, FE-USP.

Édipo e Antígona Não foi sem razão que Aristóteles, na Poética, ao estabelecer os princípios de uma teoria da tragédia, considerou o Rei Édipo uma peça exemplar. Todavia, o caráter paradigmático deste texto parece-nos ultrapassar as exigências formais da teoria aristotélica para se impor a nós, ainda hoje, como obra de valor perene e sempre atual. De fato, no teatro sofocleano experimentamos a especial sensação de nos colocar diante de nós próprios, no desafio que representa o fato de existirmos e, de existindo, assumir a decisão de escolher o sentido de ser.

E, sob este aspecto, entre todas as tragédias sofocleanas se adianta o Rei Édipo, obra das mais bem acabadas da literatura grega, na forma e no conteúdo, onde a arte de Sófocles parece haver alcançado o mais alto ponto de sua maestria.

Múltiplos são os ângulos dos quais se poderia examinar este texto, cuja complexidade favorece estudos de caráter literário, religioso, sociológico, antropológico, jurídico, e, por que não lembrar? - também psicanalítico, ou detetivesco! Realmente, para os profissionais simpáticos à explicação do homem, com algum matiz freudiano, ou, ainda, para os apaixonados pelo conto policial, a leitura do Rei Édipo é de primeira linha.

Entretanto, a nenhuma outra área da reflexão humana esta obra serve tão bem quanto à da educação e da filosofia. E por que? Porque levanta, entre muitas outras, esta problemática vital: a de ser, de existir no mundo. Rei Édipo trata de um tema do qual o homem, em época alguma, desde que conserve a sua humanidade, pode fugir.

O Rei Édipo é uma tragédia da existência. E se é uma tragédia da existência, por que não se pode considerá-lo também uma tragédia da culpa? Culpa e existência mostram-se inseparáveis e, nos termos da irracionalidade de ser, o homem deve pagar por sua individualização. Ora, esta culpa de ser, Édipo a traduz muito bem. Na versão de Sófocles, funesta maldição pesa sobre o herói; o que a justifica? Na linguagem da consciência mítica, de onde Sófocles foi colher os elementos do drama, realmente nada. É o absolutamente gratuito. Simplesmente Édipo não deve nascer. Não há qualquer ato pessoal de desmedida ou impiedade que justifique a sua desdita; esta reside na sua existência mesma. Um oráculo de Apolo predissera a Laio, rei de Tebas, que, se tivesse um filho, ele seria o matador de seu pai e marido de sua própria mãe.

Na lógica do mito, a única esperança para a criança que nasceu é a morte, caso contrário só lhe resta realizar tão infeliz destino. E outra não é a escolha de Jocasta, a mãe acuada e aterrorizada diante do aviso profético e inflexível. Mas Jocasta comete um erro vital, delegando a um servo de confiança a desumana matéria de matar o filho. A piedade perdeu Édipo, que o criado salvou da morte, para manter vivo, a despeito do oráculo. E este mesmo oráculo, que não mudou, ao Édipo jovem, filho adotivo da casa real de Corinto, repete a mesma sentença que outrora proferira a Laio, o pai.

E agora, Édipo, como agir? Como viver carregando o peso de tão terrível desgraça? Que sentido atribuir à existência, de antemão condenada a crimes nefandos? Viver para realizá-los? E como viver, sem cumpri-los?

Na montagem do drama, Sófocles recolhe e reúne vários elementos de uma tradição bem anterior a ele, tradição mítico-mágica em que as esferas do ser e do valer estão monisticamente confundidas. De fato, no pensamento arcaico, o erro moral comunica ao mundo físico uma espécie de poluição contaminadora; a natureza toda reflete as conseqüências do mal. Não é noutro sentido a advertência do poeta Hesíodo; a cidade inteira paga as faltas de um só, pois as colheitas fenecem, as mulheres mostram-se estéreis, a fome e a peste aniquilam inúmeras vidas e Zeus retira sua proteção aos exércitos e aos homens no mar. Esta poluição natural estende-se à descendência do homem ímpio, cujos filhos já nascem marcados pelo mal; herdeiros da culpa, eles pagam, como lembra o poeta Sólon, pelos erros dos pais; a divindade, inexorável, cobra, na pessoa de inocentes, a expiação.

Pela lei da antiga fé, os deuses assumem a tarefa de punir o homicídio de uma criatura do mesmo sangue do criminoso. As Eríneas, em especial, perseguem o matador de forma incansável e aterradora, até a compensação da falta e a subseqüente purificação. Enquanto tal não ocorre, o homicida impune carrega um miasma e comunica esta mácula aos descendentes, além de atrair, contra a cidade em que habita, a cólera divina.

Gustave Moreau, Édipo e a esfinge, 1864. Óleo sobre tela

Pois bem, Édipo é uma figura claramente moldada nesse esquema de crenças da tradição religiosa arcaica. Sem o saber, já homem feito, é ele o ímpio contaminador de Tebas. Uma peste funesta enluta a cidade. E, de novo, o oráculo délfico se faz ouvir: um homicida polui a terra de Cadmo; urge descobri-lo, afastando, com ele, o mal. E a quem cabe esta tarefa? Ao rei que, outrora, libertou Tebas das garras da esfinge, decifrando-lhe os enigmas. E, quem é o rei? Édipo, que fugira de Corinto temendo a sentença pítica, e que, numa encruzilhada de três caminhos, acidentalmente, assinara o rei de Tebas, Laio, seu pai, e os homens de sua comitiva, ignorando-lhes a identidade, e que, chegando a Tebas, por livrá-la do monstro, desposara em recompensa a rainha, Jocasta, sua mãe.

Em nenhuma outra peça sofocleana a ironia trágica se propõe com tanta finura, exacerbando o sentimento de piedade e temor que a leitura do texto provoca, como se para a catarse dessas paixões não bastasse a dramática situação do próprio Édipo. Apenas a título de um pálido exemplo (não nos interessa aqui um estudo literário do drama), vejam-se estas palavras do sacerdote ao rei, no prólogo:

"Tu, o melhor dos homens, conduz, de novo, o governo da cidade, com segurança, mas pensa que, se hoje esta terra te aclama como seu salvador, porque com ela te preocupaste, faz com que não tenhamos de recordar, mais tarde, o teu governo, como uma época em que nos erguemos muito alto, para depois cairmos no mais profundo mal". (Rei Édipo in Antígona, Ájax, Rei Édipo, trad. de Antônio Manuel Couto Viana, ed. Verbo).

Para salvar Tebas, Édipo deve encontrar o assassino de Laio, devolvendo, assim, à cidade a paz e prosperidade perdidas. Ao fazê-lo, porém, irá provocar justamente a desgraça que procurara evitar. Na verdade, a maior ironia da trama está no fato de Édipo procurar, com empenho e perseverança sem limites, um assassino que é ele próprio. Considere-se o duplo sentido desta fala de Édipo, referindo-se a Laio:

"Eu, que detenho agora o poder que a ele pertenceu; que durmo na sua cama, e fecundo a mulher que foi sua e lhe devia dar filhos, se a sua má fortuna não tivesse caído sobre a cabeça dela; por todas estas razões, eu, como se de meu próprio pai se tratasse, por ele lutarei e chegarei tão longe quanto me for possível, tentando deitar mão ao responsável pela morte do filho de Lábdaco, da linhagem de Polidero e para mais além de Cadmo e, antes, ainda, de Agenor".

Há nesta peça muitos outros momentos de alta tensão em que a ironia não deixa de colaborar ainda mais para carregar nos efeitos dramáticos do texto, manifestando-se na ambigüidade das palavras e nas intervenções de certos personagens. Neste último caso, quem fala julga que vai trazer tranqüilidade ao espírito angustiado de Édipo, libertando-o de seus temores (assassinato do pai e casamento com a mãe), mas o resultado é justamente o oposto, e o herói se vê mais perturbado ainda e preso nas malhas da fatalidade.

Não é difícil reconhecer a presença da fatalidade no Rei Édipo. Ela está ligada a todos os elementos da religião arcaica anteriormente apontados, mas o que melhor a define é a idéia de uma culpa objetiva desabando sobre o herói de forma irracional. Essa idéia garantiu por muito tempo na Grécia os fundamentos do direito de punir; ela pode explicar a estranha prática judicial que, submetendo a julgamento animais e objetos inanimados responsáveis, acidentalmente, pela morte de alguém, marcava-os com um miasma contaminador. Por esta mesma idéia se pode entender também a força da justiça gentílica, na qual uma família inteira respondia pelo crime de um membro seu ou assumia o papel de vingadora da morte de qualquer de seus filhos. Foi com a descoberta da pessoa humana e a sua progressiva valorização que as bases religiosas da justiça foram cedendo lugar à idéia de individualização do crime e da pena e que o conceito de culpa objetiva foi reavaliado em função dos elementos íntimos da moralidade.

Embora, como vemos, o texto em questão se alimente da mais legítima tradição da mentalidade mítica, todavia, vai muito além dela. No cerne de uma visão monística e totalizante do homem e do universo que o rodeia, Sófocles descobre o indivíduo e uma força nova - a vontade - pela qual o homem se separa do mundo, instituindo-se como o organizador de uma ordem da qual pretende ser, ele próprio, o fundamento. Problematizada, a existência mostra-se como um irracional imponderável a que o querer e o saber humanos dão combate e aspiram vencer. E nada melhor para traduzir este irracional do que a idéia de Fatalidade, ou para ser mais preciso, de um destino (Moira) inexorável que está acima do homem, que o acompanha a cada passo e que, por fim, o faz sucumbir. Todavia, no momento em que o homem questiona este imponderável e lhe opõe a resistência de seu querer, ainda que o de um querer marcado pela fragilidade de sua própria condição, neste momento, a presença da fatalidade passa a ser uma presença dramática e do mais alto significado ético.

Não nos parece ser outro o sentido do Rei Édipo. Nele, correm paralelas a força do irracional, consubstanciada na figura mítica da Moira, e a da obstinada autodeterminação de seu personagem principal, Édipo. E, num jogo de ambigüidades, a manifestação de uma se revela a realização da outra. De fato, Édipo fugira de Corinto por acreditar que conseguiria elidir o decreto pítico. Mas em Corinto viviam seus pais adotivos, e a fuga apenas o leva ao encontro de suas vítimas, Laio e Jocasta. E o herói sofocleano, que julga estar se afastando a cada passo de seu cruel destino, a cada passo mais se aproxima da consumação desse mesmo destino.

Vemos, entretanto, na pertinaz fuga de Édipo um ato de liberdade, pois outro não é o significado de uma vontade que aspira a transcender o dado e a ele se impor. Assim, também, vemos na persistente e corajosa investigação de Édipo, na qualidade de rei de Tebas, na busca do ímpio poluidor, mais um exercício de liberdade. Reconhecemos na audácia e firmeza de Édipo ao levar o inquérito até o final, ainda quando lhe parece claro que o processo de busca do assassino de Laio se confunde com o processo de busca de sua própria identidade, mais uma autêntica profissão de fé no homem. É com impiedosa obstinação que Édipo, sem mais esperanças de que a desgraça não desabe sobre sua cabeça, constrange com firmeza o criado do palácio a revelar a sua origem. "Ai de mim", diz o fiel servo de Jocasta, "cheguei ao ponto mais terrível do que terei de dizer!". "E eu", retruca Édipo, "do que terei de ouvir. Mas há que ouvi-lo".

A única forma de Édipo recobrar a dignidade como homem é desvelar o segredo de sua origem, sem o que, para ele, a existência permanecerá sempre um enigma, desprovida de qualquer sentido. Aqui aparência e realidade se reúnem para dar a nota mais alta da tragédia. Realmente, quanto mais Édipo se aproxima da verdade, de seu próprio ser, mais próxima se faz a sua destruição. E quanta grandeza se descobre nesta figura aniquilada pelo sofrimento que exclama, agora conhecedora de toda a verdade: "Ai, ai! Era tudo certo e tudo se cumpriu. Ó luz! Vejo-te, hoje, pela última vez!, que hoje se revela que nasci de quem não devia; daqueles cuja convivência devia ter evitado; matador de quem não podia matar". Édipo e a Esfinge - De Chirico

 

Parricida e réu de incesto, é no momento de sua maior grandeza que este homem sofre golpe tão inominável! Não foi noutro sentido a profecia de Tirésias, o adivinho: "O dia de hoje te fará nascer, e te matará".

"Era tudo certo e tudo se cumpriu", diz Édipo. De novo parece vitoriosa a força do irracional. Mas que importam êxito e fracasso diante de uma consciência que luta? O homem que uma só vez acreditou em si próprio é, já, um vencedor. Édipo não é uma vítima do destino, passiva e desesperadora, mas uma vítima que contra o inexorável reuniu e opôs todas as suas forças. E, como tal, não pode ser um derrotado. Entretanto, para tão funesta desgraça a morte é quase nada. Viver, sim, assumindo com coragem a própria condição, ainda que vergonhosa, é, ainda, apostar no homem. Aceitar a existência, agora condenada à solidão, ao exílio e à impiedade, mas sem ver, estampado no olhar de seus semelhantes, o horror a um ímpio contaminado, agente da poluição. Daí, de novo, na manifestação de um querer personalíssimo, a autopunição:

"Apolo. Foi Apolo, amigos, e o que me culminou dos mais horríveis, dos mais horrorosos sofrimentos. mas estes olhos vazios não são obra dele, mas obra minha. Que desgraçado sou! Que poderia eu querer ver, ainda, se nada mais existe que possa trazer alegria aos meus olhos?"

Numa outra peça de Sófocles, Édipo em Colona, reencontramos Édipo, agora em busca de um local de repouso definitivo, à espera da morte. Ele já cumpriu a sua pena, peregrinando, sem família e sem amigos; na solidão, o tempo amadureceu a sua dor, mas como os anos vieram também a sabedoria e uma profunda paz. O Édipo de Colona é um homem sereno, reconciliado com os deuses e consigo próprio. Não há revolta em sua alma: "Os sofrimentos e a experiência de tantos anos - e também a minha natureza corajosa - ensinaram-me a resignação". (Théatre de Sophocle, ed. Garnier, segundo a trad. de Robert Pignarre. V. 6-9). Todavia, a atitude de piedade e respeito aos deuses não o impedem de fazer sua autodefesa "Estrangeiros, cometi meus crimes. Cometi-os, mas, em face do céu, eu o afirmo: nestes crimes, não teve parte a minha vontade" (ed. citada, v. 521-3). Dessa forma, desqualifica em Sófocles a idéia de culpa objetiva e o querer do homem se impõe como o fundamento da ordem moral. Édipo se reconhece culpado, sim, mas de homicídio, nunca de parricídio e incesto, pois não sabia que matava, em Laio, o próprio pai e jamais teria repartido o leito com Jocasta, se soubesse ser ela sua mãe. "Assassino, seja; mas sem tê-lo premeditado e puro diante da lei, pois que eu tudo ignorava" (ed. citada, v. 549-50).

Vontade e conhecimento, eis o que Sófocles reclama como critério da responsabilidade. O homem responde pelo que faz querendo e conhecendo, nunca por atos que cumpre sem uma participação voluntária ou na ignorância de seu significado.

Afinal, no teatro sofocleano o grande personagem é o homem. Significativamente, deixando de lado a composição dramática de trilogias ligadas pelo mesmo tema - em geral a história de uma família sobre a qual pesa uma falha moral ou maldição - no estilo de Ésquilo, Sófocles dá realce a grandes figuras humanas, personalidades de caráter inflexível, de um querer obstinado, que agem em função de suas próprias eleições, sem o apego a qualquer motivo que não proceda de seu próprio íntimo. Ajax, Antígona, Electra, Édipo, Filoctetes, são individualidades poderosas, cuja consciência e vontade, uma vez manifestadas, se mantêm firmes e desencadeiam todas as evoluções da ação dramática. São, entretanto, criaturas solitárias, que permanecem irremediavelmente sozinhas no momento decisivo em que assumem o seu destino. Elas nos ensinam que um ato de liberdade, real ou ilusório, é sempre decidido na solidão da consciência e que apenas nós, mais ninguém, respondemos por ele.

Édipo é, todavia, uma criatura em paz com os deuses. Piedosamente, aceita a sua sorte e tem fé, apesar de tudo. No universo sofocleano a transcendência do querer humano encontra um limite, pois deve acomodar-se a uma ordem divina contra a qual, por vezes desolado e aturdido, o herói se opõe, para, afinal, a despeito das incongruências da vida, entoar-lhe um cântico de fé. Quanto a nós, que importa se parecemos frágeis brinquedos do imponderável - Destino ou Acaso - qualquer que seja o nome que se lhe dê? Enquanto buscarmos o fundamento da ordem na qual nos inserimos em nós mesmos, ainda há esperança para o homem.

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