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O Mundo Cívico
No mundo antigo de Grécia e Roma, as cidades são antes definidas por seus homens que pelo território. Não é sem razão que a linguagem oficial não dirá Atenas, mas os Atenienses, ou a Cidade dos Atenienses. A cidade formada por estes indivíduos, no entanto, é um fim em si: monopoliza a atividade de todos. O jovem grego ou romano prepara-se para ser aquilo que a comunidade espera dele: as belas palavras e belas ações, resultado da educação que Fênix dispensou ao herói homérico Aquiles, ou o aprendizado que Cícero recebeu do nobre jurisconsulto Múcio Cévola, em um tempo - cronológico e lógico - muito posterior, terão significado apenas inter pares, pois o caminho que leva à maioridade é um longo rodeio em torno da cidade.
De fato, torna-se cidadão o homem que participa do culto comum, sendo essa participação a origem de todos os seus direitos. O aprendizado das "coisas sagradas" é exigido para a aceitação no corpo social: os cultos, os festivais, a manifestação artística - tudo aponta para a necessidade de se constituir o indivíduo no embricamento entre religião e mundo cívico. Desinteressar-se de tais assuntos é falta grave: somente depois da derrota de Queronéia, em 338 a.C., quando Atenas perde sua independência para o império macedônico, é que o epicurismo terá a audácia de aconselhar aos homens cuidar antes de seus interesses particulares que dos da cidade, ignorando os deuses distantes, tão distantes dos homens que nem lhes fazem caso.
A moral tradicional, no entanto, perdurará ainda por muito tempo (em Roma, já no tempo de Augusto, Horácio podia cantar, sem medo do ridículo, que é "belo e doce morrer pela pátria"). Nesse mundo mental, o homem só é homem se for, também, cidadão. Mulheres, crianças, estrangeiros e escravos são menores diante do polítes, ele sim dono de uma individualidade pronta a se expressar. Este homem, seguidor da tradição cívica e orgulhoso dela frente ao bárbaro regido por caprichosos senhores, é livre apenas dentro dos limites da lei.
Marcos Sidnei Euzebio
Cavaleiros na Procissão Panatenaica
Participação na defesa da cidade: o soldado
Participação na defesa da cidade: remadores e trirreme