Uma reavaliação do Filotetes de Sófocles

Gilda Naécia Maciel de Barros

Dedicamos este estudo a uma peça de Sófocles intitulada Filotetes, pouco explorada, mas de uma temática tão próxima de nós quanto as de outras peças de primeira linha deste mesmo autor.

O ângulo que nos propomos examinar aqui parece-nos haver passado despercebido a muitos comentadores do teatro grego; de fato, menos que o problema da solidão humana ou ainda o conflito entre os interesses do indivíduo e os do Estado, o que nessa peça movimenta a ação dramática é, antes, um drama de consciência cujo conflito se estabelece em função da descoberta do valor da pessoa humana.[i]

Sem dúvida alguma, o Filotetes de Sófocles não tem o porte teatral que faz, e com justiça, a grandeza de um Rei Édipo; todavia, a forma pela qual o poeta explora na peça em questão o problema ético, torna a obra um documento de valor sem igual para todos quanto se dediquem ao estudo das reflexões morais no pensamento antigo. Senão, vejamos.

Esta peça nos fala de Filotetes, um homem só, doente e abandonado por seus amigos numa ilha deserta, Lemnos. Herói grego que integrara a expedição contra Tróia, depois de haver sido ferido em Crisa por uma serpente venenosa, Filotetes tornara-se um estorvo para o exército, devido aos lancinantes gritos de dor que constantemente emitia, pois o afligia uma úlcera devoradora em que se tornara a mordida da víbora. Por ordem dos Atridas, e com eles conivente, Ulisses, companheiro de Filotetes e seu igual, tendo-o enganado, abandona-o em Lemos, local selvagem e desabitado. Passados dez anos de absoluta solidão e miséria para Filotetes, o exército grego dele necessita para alcançar a total derrota dos inimigos. Uma profecia revelou que Tróia só cairá se juntos contra ela lutarem Neoptolemo, o jovem filho do grande Aquiles, e Filotetes, possuidor das invencíveis armas de Hércules. Assim, é tarefa de Ulisses, representando o exército grego, conseguir o retorno do herói ao combate, sem o que o longo cerco de Tróia resultará inútil.

Mas, como poderá Ulisses levar a bom termo esta tarefa? Pessoalmente, nunca seria recebido por Filotetes, que lhe tem ódio, pois o considera um dos responsáveis por sua desgraça. Uma tentativa de aproximação poderia custar-lhe a vida, pois as armas com que outrora Hércules distinguira Filotetes fizeram dele um homem invencível. Assim, impõe-se a Ulisses a necessidade de armar um estratagema pelo qual seus objetivos sejam alcançados sem risco pessoal. Neoptolemo será o executor do plano. Aproximando-se de Filotetes, na qualidade de inimigo dos Atridas, e de Ulisses, por haver perdido, injustamente, para este, e com a anuência daqueles, as armas de seu pai, morto em combate, Neoptolemo deverá enredar Filotetes numa cilada. Tendo conquistado a confiança e a amizade do herói, o filho de Aquiles deverá apoderar-se das armas de Hércules em seu poder, armas morteiras e invencíveis, único amparo de Filotetes, pois lhe garantem proteção e alimento. Em dado momento do desenrolar da ação veremos mesmo Neoptolemo prometer a Filotetes o enganoso auxílio de retorno ao lar, enganoso porque o filho de Aquiles o estaria de fato levando de volta ao campo de luta e ao exército grego.

É com estes elementos que Sófocles irá montar a peça, cujo primeiro episódio já levanta um problema de conversão da vontade. Realmente, embora o exército haja indicado Neoptolemo para ser o auxiliar de Ulisses, este precisa obter do jovem a adesão a seus métodos de trabalho, métodos nada louváveis aos olhos do filho de Aquiles. Aqui, mais uma vez, se reforça a tese de que o elemento fundamental do teatro sofocleano é o problema da vontade. Na verdade, o primeiro episódio o mostra com clareza, como veremos.

Filotetes é um personagem mítico do ciclo troiano, cuja história na Grécia foi tema para vários outros autores. Assim, os cantares cíprios, a pequena Ilíada, a Ilíada (canto II, v. 721-725), a Odisséia (canto VIII, v. 219-220) já fazem menção a esta figura heróica e ao seu infortúnio. Também se pode ler em Píndaro (Pítica I, v. 100 et seqs.) uma referência ao orgulho de Filotetes e à sua vitória em Tróia. Sabe-se de notícia também em Baquílides, mas infelizmente perdeu-se o ditirambo a respeito. Por outro lado, entre os trágicos, Ésquilo e Eurípides, cada qual a seu modo, trataram do tema, conforme estudo comparativo de Díon Crisóstomo (Discurso 52).

Todavia, o que distingue o tratamento sofocleano da matéria é, de um lado, o acento posto na solidão do herói, solidão em nenhuma outra peça do poeta tão bem explorada, e, por outro, o problema nuclear da tragédia, o problema da vontade. No caso desta peça, Sófocles procede até certo ponto como em outras tragédias suas, como o Rei Édipo, Ájax, Eletra, Antígona, realçando a autodeterminação do seu personagem principal, antes que os efeitos por vezes funestos da intervenção divina ou do destino. Só que, no caso do Filotetes, não é apenas o problema de uma vontade que se afirma, irredutível, contra qualquer obstáculo que possa desviá-la de seu fim. Mais do que isto, é o problema mesmo da decisão de não retornar ao cerco de Tróia e de nem auxiliar os gregos. Mas Neoptolemo, não. Ele não está convencido de seu papel, que contraria sua natureza (physis) e, a partir de um dado momento, é com desgosto que o vemos continuar a representá-lo perante sua vítima. Na realidade, a reviravolta na ação dramática se dá porque Neoptolemo sofre uma crise de consciência que põe abaixo todo o esquema de Ulisses. O plano deste se revelara eficiente; tão eficiente que Filotetes se propusera a acompanhar Neoptolemo rumo a sua terra natal e, durante a crise de dor que o acometera, ao próprio Neoptolemo confiara a guarda de sua invencíveis armas, para, a seguir, entregar-se ao sono reparador. O que escapara ao estratagema do filho de Laerte fora o conflito íntimo que, durante todo o desenvolver-se da cilada, a consciência de Neoptolemo alimentara, conflito que se tornava cada vez mais angustioso à medida que Neoptolemo ia descobrindo a pessoa de sua vítima, sua condição humana miserável de criatura sofrida e em desamparo. E é precisamente deste conflito interior que se alimenta a ação dramática inteira. E é por isto que se pode ver nesta tragédia, ao lado do crucial problema da solidão humana, o problema da afirmação de uma conduta ética. Examinemos, porém, mais de perto, o desenrolar do drama.

Ulisses e Neoptolemo estão próximos da gruta onde, há dez anos, Filotetes fora exposto. Habilmente, Ulisses põe o jovem a par da história toda e da necessidade de se apoderarem das armas do herói. Mas é no momento em que Ulisses revela a forma pela qual planeja fazê-lo que Neoptolemo se rebela. Ulisses exige de Neoptolemo uma coragem sem escrúpulos, a coragem de ousar, como ele próprio o diz, de assumir um comportamento sinuoso, pleno de astúcias, necessário ao triunfo grego sobre Tróia. Daí sua proposta ao filho de Aquiles: “Com linguagem dissimulada, deves apoderar-te da alma de Filotetes” (v. 54-55). Homem maduro e de expedientes, já na Ilíada e Odisséia conhecido por sua finura e artifícios, por seu poder de persuasão, Ulisses procura fazer o melhor para encontrar o caminho da alma de Neoptolemo, cuja franqueza e lealdade ele não desconhece, já que observa: “Bem sei, criança, que por natureza não fosse feito para falar desta maneira, sequer para maquinar o mal” (v. 79-85). Mas Ulisses tem uma missão de caráter político, e aqui, como acontece em tarefas desta natureza, os meios se justificam pelos próprios fins. Daí as palavras de incentivo e a franqueza rude com que Ulisses se dirige ao filho de Aquiles: “É doce colher os frutos da vitória! Atreve-te! Mais tarde mostrar-nos-emos justos. Agora, por breve tempo, sem pudor entrega-te a mim; depois, para o futuro, poderás ser chamado o mais piedoso dos mortais” (v. 80-85). Mas a natureza de Neoptolemo não pode acolher tais propósitos. Como Aquiles, seu pai, Neoptolemo é senhor de uma alma generosa, reta. As ações francas, sem rodeios e sempre às claras é que são de seu feitio. Por isto ele responde a Ulisses: “Para mim, filho de Laerte, as palavras penosas de ouvir são-me odiosas de traduzir em atos, pois, do mesmo modo que meu pai, como dizem, não nasci para agir usando de recursos vis. Estou pronto, porém, a trazer o homem pela força, nunca pela astúcia, pois não será um homem com um só pé que, também pela força, há de por as mãos em nós, que somos tantos. Fui, por certo, enviado para auxiliá-lo, mas temo ser chamado de traidor. Prefiro, ó rei, agir bem sem êxito a vencer covardemente” (v. 86 a 95). Estas palavras não ferem o brio de Ulisses. Ulisses é o responsável direto pelo êxito militar dos gregos, uma vez que é sua incumbência tomar as armas de Filotetes. E ele o fará a qualquer preço. Ulisses quer os resultados e não se deixa atormentar por conflito algum. Já outra é a posição de Neoptolemo, sobre os ombros de quem não pesa a responsabilidade final pelo retorno de Filotetes ou, ao menos, a apreensão de suas armas. Assim, colocado numa outra posição, vemo-lo dirigir a Ulisses estas palavras tão rudes: “Não tens, acaso, escrúpulos em dizer mentiras?”(v.108). Palavras retrucadas com igual franqueza: “Não, se a mentira traz a salvação” (v.109). Ao que o espanto de Neoptolemo o leva a indagar: “Com que olhar, pois, alguém ousará proclamar estas idéias?” (v.110). Espanto diante do qual Ulisses não terá pejo em confessar: “Quando se age por interesse, não convém hesitar” (v. 111). Este duelo entre ambos parece chegar ao seu final quando Ulisses, com extrema habilidade, joga com um valor fundamental para vencer as resistências de seu opositor: a atração da fama. Ulisses procurará explorar o sentimento muito natural em Neoptolemo de vencer em Tróia, de angariar junto aos grandes homens de toda a Grécia prestígio e honrosa nomeada. Neoptolemo não provara ainda aos gregos que, na luta, é tão bom quanto o fora Aquiles, seu pai, considerado o melhor de todos os guerreiros. Assim, a necessidade de praticar um grande feito, a tomada de Tróia, e, como tal, afirmar-se como herói, que pretende ser, acaba por levar Neoptolemo a consentir no plano de Ulisses, e a aceitar ludibriar Filotetes, fazendo-se seu amigo para tomar-lhe as armas. Por isto, quando Ulisses, matreiramente, acena a Neoptolemo com as vantagens de sua missão, o jovem não mais hesita: Ulisses - “Isto traz para aquele que o fez duas vantagens”. Neoptolemo - “Seja! Eu o farei, sem qualquer escrúpulo” (v. 117-120). Assim, termina o episódio da conversão espiritual de Neoptolemo. Conversão aparente, pois, de agora em diante, à medida que o jovem for percebendo as conseqüências desumanas de seu ardil, mais aguda se tornará em seu coração a luta entre o desejo de afirmar-se como herói perante o exército e o respeito à pessoa de Filotetes. É que Neoptolemo não enganara um homem, pura e simplesmente. Ele atraiçoara a confiança de uma criatura desamparada e doente, de quem se fizera astuciosamente amigo e, o que é mais grave, sua vítima se tornara seu suplicante. No momento em que lhe entregara a guarda das armas de Hércules, porque uma crise lhe perturbava os sentidos, Filotetes se propusera na qualidade de suplicante e, em relação a ele, Neoptolemo assumia um dever de caráter religioso. Seu crime, portanto, assume a dimensão de uma impiedade. Crime que lhe vai parecendo cada vez mais monstruoso, pois Sófocles é hábil em realçar o infortúnio de Filotetes e, carregando na grandeza deste infortúnio, carrega igualmente na torpeza do comportamento de Neoptolemo. Por isto, na proporção em que aumentam a confiança, a credulidade e a afeição de Filotetes por Neoptolemo, se torna mais penoso a este dissimular. É interessante notar como o poeta procura destacar uma certa afinidade entre ambos, e é esta descoberta que também aflige Neoptolemo, cuja identificação com sua vítima se vai fazendo cada vez mais sensível. Assim, quanto maior e mais íntimo o contato de Neoptolemo com Filotetes, mais distante o filho de Aquiles se coloca de Ulisses, de seu discurso persuasivo, chegando um momento em que Neoptolemo, tendo todas as condições para concretizar o plano de Ulisses, se torna presa de uma hesitação incontornável. Hesitação que atinge o ponto alto no II episódio, durante o qual sobrevem a Filotetes uma crise atroz. Escorrem-lhe então suores pelo corpo todo; de uma veia de seu pé ferido jorra o sangue negro e dores violentas fazem-no desejar a morte. E, diante de sua vítima agora em estado deplorável, Neoptolemo se confessa em estado de compaixão (v. 759-61; 806). Então, quando, no II estásimo, o coro põe diante de Neoptolemo o problema de consumar o plano, o herói faz uma revelação que tem o efeito de retardar a sua ação: de nada vale a arma de Filotetes sem a sua pessoa. Não fica claro na peça se a queda de Tróia poderia dar-se sem a presença de Filotetes, sendo as suas armas manejadas por algum outro arqueiro grego. Mas nós podemos interpretar a revelação de Neoptolemo como um pretexto do jovem para fugir ao momento decisivo de sua própria cilada. A situação fica mais difícil quando Filotetes, despertando do sono que sobreveio à crise, mostra-se cheio de gratidão porque Neoptolemo não o abandonara. E são penosas de ouvir as palavras de agradecimento e o elogio a sua natureza generosa, que suportou com desembaraço os gritos de dor e o odor fétido da ferida do enfermo. Com semelhante espírito de reconhecimento Filotetes mostra a intenção de preparar-se para partir com o navio de Neoptolemo, rumo à pátria, indo ao encontro dos planos de Ulisses, sem o saber. Então, vem a reviravolta da ação. O conflito íntimo de Neoptolemo atinge o ponto mais alto e se resolve quando o filho de Aquiles, deixando falar a sua autêntica natureza, revela a sua vítima a trama funesta (v. 895 et seqs.). E como lhe é doloroso confessar o crime (v. 897). De início, Filotetes não compreende. Teria Neoptolemo desistido de levá-lo de Lemnos, tal a repugnância que lhe causa a sua ferida? O que lhe causaria então repugnância, senão o mau odor que exala o pé doente? Neste ponto ouvimos as palavras mais significativas de toda a peça, palavras de Neoptolemo em resposta a Filotetes: “Tudo repugna, quando se trai a própria natureza para cometer uma ação vil” (v. 902-903).

A confissão do jovem traz ao primeiro plano uma idéia mestra no teatro sofocleano, a idéia de physis que, nesta peça, é a grande mola de ação. Em diversas passagens Sófocles chama a atenção para o problema da natureza do herói, seja pela boca de Ulisses, Neoptolemo ou Filotetes, como podemos observar nos versos 79-80; 88-89; 475-476; 799; 874; 902-903; 1011 et seqs.; 971-3; 1052; 1068; 1310-1313. Trata-se de uma idéia que não é nova, do mais alto significado no pensamento aristocrático grego. Aqui Sófocles a coloca no centro mesmo do problema da vontade, para não dizermos do problema moral. De fato, no Filotetes, a conduta ética se propõe como uma vitória do verdadeiro caráter de Neoptolemo. A sua natureza, violentada pela ambição da glória, vence a atração do êxito incondicional e devolve-lhe o equilíbrio, à medida que sua vontade passa a ser a manifestação de sua índole reta e generosa e se liberta dos envolvimentos persuasivos de Ulisses. Mas a confissão de Neoptolemo, se o liberta da carga de se sentir um traidor, não o devolve de todo a si mesmo, pois ele ainda se debate entre o dever militar e o seu interesse pessoal de um lado e, de outro, a figura patética de Filotetes, que persiste em implorar-lhe a devolução das armas. A essa altura intervém Ulisses, cuja figura dá ao contexto uma dimensão mais carregada ainda. Confrontam-se então Ulisses e Filotetes. Ulisses não se contenta em apoderar-se das armas do herói; ele quer o próprio Filotetes combatendo junto aos gregos. Todo o ódio e revolta de Filotetes se revelam no embate que então se processa. E Filotetes não cede. Mas a interferência de Ulisses prejudicou qualquer atitude benevolente de Neoptolemo. Na verdade, Neoptolemo voltará atrás depois, procurando Filotetes para entregar-lhe as armas e deixará a seu alvedrio o voltar ou não ao cerco troiano. Assim, é no último episódio que vemos Neoptolemo reintegrar-se em sua physis, ele que até então vivera apartado de seu autêntico ser. É quando se resolve por inteiro o conflito que o atormentara o tempo todo, seguindo-se um diálogo entre ele e Ulisses do mais alto conteúdo ético (v. 1222-1251). Ele quer saber por que Neoptolemo retorna à gruta de Filotetes e o que pretende. E Neoptolemo declara: “desfazer o erro que antes cometi”. Ulisses: “Falas de modo estranho; qual foi o erro?” Neoptolemo: “O de te obedecer e também ao exército inteiro”. Mas Ulisses quer ir a fundo e saber a natureza da ação que Neoptolemo condena: “Que ação praticaste das que não te convém?” Neoptolemo: “Sujeitei a mim um homem pela astúcia, enganando-o com vis ardis”. E, quando Ulisses insiste em ter a certeza de que Neoptolemo pretende mesmo entregar as armas, este se justifica no mesmo sentido: “Sim, porque não as tomei conforme o justo, mas de forma vergonhosa”. Inúteis as ameaças de Ulisses. Nem Ulisses, nem o julgamento do exército grego são motivos para Neoptolemo recuar. E quando Ulisses o lembra de que está sob seu comando e que o objeto apreendido o foi sob suas ordens, Neoptolemo se defende dizendo: “Eu cometi uma falta vergonhosa e procuro repará-la”. É a convicção de que age com justiça que o faz enfrentar a ira do povo aqueu e a poderosa figura de Ulisses. E este, quando observa a Neoptolemo que lhe falta prudência nas palavras e nos atos, recebe o filho de Aquiles a resposta de que a justiça é melhor do que a prudência.

Se compararmos esta discussão de Neoptolemo e Ulisses com o diálogo de ambos no primeiro episódio da peça, veremos que o jovem do princípio, inexperiente e indeciso, já se tornou um homem. Neoptolemo tem consciência da infâmia que cometeu e assume inteiramente a responsabilidade de seus atos. O contato com Filotetes ofereceu-lhe a oportunidade de firmar-se como herói em um contexto muito diferente do do campo de batalha. Neoptolemo se venceu à medida que deixou falar o verdadeiro Neoptolemo (conforme as palavras de Filotetes nos versos 1310-1313) com sua lealdade e respeito ao outro. Em termos sofocleanos, a devolução das armas a Filotetes representa a vitória da autêntica natureza do herói. De fato, à medida que Neoptolemo reconhece o valor da pessoa humana na figura patética de Filotetes, os fins já não lhe parecem justificar os meios e a instrumentalização do outro se torna ignominiosa justamente porque este outro perde a dimensão de coisa que se possa tomar para assumir o significado de pessoa, e, como tal, sagrada e inviolável. Assim nos parece que, muito mais do que qualquer outra coisa, a devolução das armas marca o ingresso de Neoptolemo no mundo ético e nos representa um outro tipo de heroicidade, o que se exercita no íntimo de cada um, à medida que o problema que se coloca não é o de agir conforme o útil ou o conveniente, mas de acordo com o justo, para nos servirmos das palavras mesmas de Neoptolemo, ou simplesmente do que é moral.

Com estas observações pretendemos reavaliar um texto do mais alto significado para o estudo da história das idéias na Grécia, texto que põe de forma muito original para o seu tempo o velho tema da physis e do seu significado, já que o traz conjugado com o problema da gênese e do amadurecimento da conduta ética. Deixamos de lado o exame que esta conjugação pode suscitar, exame que nos levaria a interrogar sobre a validade mesma de uma conduta como a de Neoptolemo que, ética nos resultados, constitui, na sua elaboração, o revelar-se de um caráter já dado e que poderíamos chamar de a natureza do seu agente. A questão tem o seu interesse, sem dúvida, mas ultrapassa os limites deste estudo e merece tratamento à parte.

Para os nossos propósitos, pareceu-nos haver mostrado como o teatro de Sófocles se atualiza na densidade humana igualmente grandiosa de um Neoptolemo, que luta para não corromper a sua consciência, e de um Filotetes que, na sua miserável solidão e desamparo, põe a descoberto a fragilidade do próprio homem.


[i] Cf., nesse sentido, Roque Spencer Maciel de Barros, O homem como meio e fim, Jornal da Tarde, 30 de junho de 1966, tema retomado posteriormente em ensaio inserido no livro Razão e racionalidade, T.A. Queiroz, 1993, pp.231/241.