Idades da infância. Sarcófago de M. Cornelius Statius, séc. II (meados) A.D. Paris: Louvre, cliché Giraudon. Fonte: NIÉRAUDAU, Jean Pierre. Être Enfant à Rome. Paris: Belles Lettres, 1984. p.190-91.


"............ quero agora falar
de modo a que fiqueis a pensar como os homens se assemelham às casas. Primeiro que tudo, são os pais os construtores dos filhos.
São eles que lançam os alicerces dos filhos,
erguem-nos, preparam-nos com zelo para serem firmes.
E, para que sejam bons na prática e na aparência,
para eles e para o povo, não poupam material,
nem fazem conta às despesas.
Aperfeiçoam-nos, ensinam-lhes as letras, o direito, as leis;
a expensas e trabalho seu
se esforçam, para que os outros queiram igualar-se-lhes nos filhos."

Plauto, Comédia do Fantasma, V-118-128. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica, vol. II, ed. cit., p. 185-6.

O sarcófago do pequeno M. Cornelius Statius (meados do século II da era cristã), é um poderoso testemunho da vida da criança em Roma nos tempos de Adriano.
Quatro cenas nos introduzem no mundo da vida privada de uma família romana, e não há dificuldade em perceber que, no conjunto, sobreleva a força da figura paterna, que ocupa dois espaços cênicos.

Considerando a progressiva decadência dos valores da antiga vida romana nos tempos imperiais, é interessante lembrar que o conjunto guarda uma fidelidade paradigmática em relação à tradição educativa anterior, quando a família e, nesta, os pais, eram os mentores da formação de seus filhos. No caso em tela, os pais de M. Cornelius Statius parecem querer mostrar que eles dispensavam atenção pessoal ao pequeno. Este aparece em dois momentos cruciais de seu desenvolvimento: na primeira fase, que os antigos consideravam período de crescimento e após os sete anos, quando se iniciava a educação propriamente dita.

Não é de estranhar-se o tipo folguedo do garoto: montar um animal de seu tamanho parece a brincadeira natural para uma atividade análoga no futuro.
Note-se, nos dois primeiros quadros, o ar embevecido do pai; no último, a atenção com que ouve o discurso infantil.

Ao contrário do que já se pensou (*) , a última figura não é a do mestre, mas, ainda, a do pai, para quem o menino, em traje de gala, apresenta um exercício de declamação, gesticulando conforme o código da exibição retórica. O livro que traz na mão esquerda, como símbolo de cultura, é sinal de dignidade e superioridade social.

(*) História da Vida Privada.Col. dirigida Por Philippe Ariès e Georges Duby S. Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 22 e 33