O sarcófago do pequeno M. Cornelius Statius
(meados do século II da era cristã), é um poderoso
testemunho da vida da criança em Roma nos tempos de
Adriano.
Quatro cenas nos introduzem no mundo da vida privada
de uma família romana, e não há dificuldade em
perceber que, no conjunto, sobreleva a força da
figura paterna, que ocupa dois espaços cênicos.
Considerando a progressiva decadência dos valores da
antiga vida romana nos tempos imperiais, é
interessante lembrar que o conjunto guarda uma
fidelidade paradigmática em relação à tradição
educativa anterior, quando a família e, nesta, os
pais, eram os mentores da formação de seus filhos.
No caso em tela, os pais de M. Cornelius Statius
parecem querer mostrar que eles dispensavam atenção
pessoal ao pequeno. Este aparece em dois momentos
cruciais de seu desenvolvimento: na primeira fase,
que os antigos consideravam período de crescimento e
após os sete anos, quando se iniciava a educação
propriamente dita.
Não é de estranhar-se o tipo folguedo do garoto:
montar um animal de seu tamanho parece a brincadeira
natural para uma atividade análoga no futuro.
Note-se, nos dois primeiros quadros, o ar embevecido
do pai; no último, a atenção com que ouve o
discurso infantil.
Ao contrário do que já se pensou (*) , a
última figura não é a do mestre, mas, ainda, a do
pai, para quem o menino, em traje de gala, apresenta
um exercício de declamação, gesticulando conforme
o código da exibição retórica. O livro que traz
na mão esquerda, como símbolo de cultura, é sinal
de dignidade e superioridade social.
(*) História da Vida Privada.Col.
dirigida Por Philippe Ariès e Georges Duby S. Paulo:
Companhia das Letras, 1990, p. 22 e 33