
Educação e Cultura Greco-Romanas
H.-I. Marrou, em sua magnífica História da Educação na Antiguidade, marca, na história da civilização antiga e medieval, três momentos, que dirigem o ritmo da vida do homem. Primeiro, o da civilização da polis, catalizada pelo ethos da cidade-estado; a seguir, o da civilização da paideia, centrada no aperfeiçoamento do indivíduo, e, finalmente, o da civilização da theopolis, capturada pelo apelo transcendental da fé.
Partindo do ideal paidêutico do herói guerreiro (Aquiles), a evolução dessa cultura matriz vai definir-se, sempre mais, no sentido de acentuar o aspecto intelectual na formação humana, em detrimento do físico, como bem assinala Marrou naquela obra, e Aristófanes, em As Nuvens (séc. V a.C.), ilustra com raro brilho. E quando nos primeiros tempos do cristianismo, no mundo cristão se direciona o esforço pedagógico para uma referência central - o Livro (Bíblia) - o que se faz é canalizar para o transcendente uma mentalidade voltada, já, ao final do império romano do ocidente, para a formação do escriba.
Dos primórdios da cultura grega até o século V A.D, a história da educação só é interrompida com a queda do império romano do Ocidente. Nesses quinze séculos de civilização, divididos pelo nascimento de Cristo, deve-se reconhecer a originalidade do período helênico - das origens até o século IV a.C. - sob cuja inspiração desenvolveu-se o helenístico-romano.
De fato, das origens heróicas à conquista da Grécia por Filipe vão definir-se as grandes referências dos quadros educativos dos séculos subsequentes. Em especial, sob a tutela espiritual da cidade-estado (polis), nasce e cresce a reflexão filosófica, abrem-se caminhos especulativos para temas da ciência, lançam-se os fundamentos teóricos da política, e se consolidam os paradigmas da vida democrática.
Mas, a para história das práticas e saberes educativos, foi de vital importância a constituição epistemológica da disciplina, o que tornou possível, a seguir, tudo o mais que acompanhou, do helenístico aos nossos dias, a vida escolar com programas e currículos, fundada em ciclos, graus ou níveis. Isto não se teria feito sem a demarcação de lotes específicos no campo do saber, trabalho notável de intelectuais gregos, sobretudo de alguns sofistas.
Assim, ao lado de uma incipiente, mas regular, iniciação escolar em nível de primeiras letras, o período helênico legou-nos aquilo sem o que a idéia de formação não teria sido depois, absolutamente, institucionalizada em grande estilo.
O helenístico consolida e expande os quadros da formação clássica e a grande marca desse período é a ênfase na formação do sábio cosmopolita e, não mais, como na anterior, do cidadão da polis (polites). Estruturam-se os estudos que delineiam o perfil de um ensino secundário e florescem vários centros de pesquisa superiores (Atenas, Pérgamo, Rodes, Alexandria etc) Disputam o primeiro lugar, na formação do homem, filosofia e retórica, conquanto a cultura helenística tenha sido essencialmente literária, e todo bom orador tivesse freqüentado a filosofia.
Quando Roma conquista a Grécia no século II a.C., apenas tornará claro para o mundo, a partir daí, uma influência que já sofria antes (por meio dos etruscos, da Magna Grécia) e à qual ainda resistia. A civilização romana, até então marcada e defendida pela sua originalidade (educação do pater-famílias, gerente do patrimônio familiar rural, soldado exemplar e cidadão piedoso) se deixará subjugar pelo poder do lógos helênico.
Incorporando, na medida de suas conquistas, a civilização helenística, Roma também vai adotar os quadros e conteúdos da prática pedagógica do mundo bárbaro helenizado, adaptando-os, porém, aos seus valores e ao seu espírito pragmático. Dessa forma, ela nos preservará o patrimônio cultural dos pais de nossa civilização - os gregos, acrescido de sua contribuição e originalidade, no campo da Arquitetura, da Medicina e, sobretudo, do Direito.
Prof.ª Dr.ª Gilda Naécia Maciel de Barros