A Apologia de Sócrates: Exercício Cênico*

(Baseado na Apologia de Sócrates, de Platão, na tradução de Jaime Bruna)

Personagens:

Sócrates

O Arauto

O coro

Cenário: o palco vazio, com apenas algumas colunas gregas. Projetada ao fundo, a imagem da Acrópole ateniense.

[Voz em off:]

Em 399 antes de Cristo, Sócrates de Atenas foi acusado e julgado por ateísmo e corrupção da juventude. Dois mil e quinhentos anos depois, consideramos tal homem o mestre por excelência, ainda que insistisse em dizer nada saber. A corrupção e a impiedade causadas pelo filósofo e pela filosofia, essa bela dança do pensar, talvez sejam a forma mais humana de liberdade.

[Entra o arauto, atravessando a platéia. Ao chegar ao centro do palco, bate com um cajado no chão e fala:]

Arauto [olhando para a platéia]:

Atenienses, juizes heliastas: minha tarefa é lembrar-vos de vosso dever. Como manda a lei, reunimo-nos. Como manda a lei, ouvimos a acusação, neste processo por impiedade. "Ó Palas, protetora da Cidade, tu que és senhora da terra mais sagrada, superior a todas pela guerra, pelos poetas e pela potência" 1, deusa Atena, dê-nos ponderação e discernimento para bem julgarmos.

[Bate outra vez com o cajado no chão]:

Apresente-se Sócrates, filho de Sofronisco, do demo Alopece. Sobre ele pesam, juradas por Meleto, o poeta, por Ânito, o político, e por Lícon, orador, as acusações de não reconhecer os deuses da cidade e de corromper os jovens com ensinamentos ímpios, arrancando-os do caminho da tradição. A pena pedida é a morte. Apresente-se Sócrates, filho de Sofronisco de Alopece.

[Enquanto Sócrates dirige-se para o palco, o coro comenta]:

Coro [olhando para a platéia]:

Sócrates! Vens tão tranqüilamente ocupar teu lugar diante destes homens? Não fazes caso de teu destino ? Não receias jamais daqui sair? Não enxergas o sangue nos olhos de teus acusadores? "Sobre todas as ações paira o perigo e ninguém sabe aonde vai ter, quando a tarefa começa; quem tentar agir bem, sem prever cai em grande e penosa desgraça".2

O ar está cheio de maus presságios...

Arauto:

Já ouviste os termos do processo e a acusação, Sócrates. Defenda-te: é o que a lei prescreve.

Sócrates [olhando para a platéia]:

Atenienses, por favor peço-lhes que não se irritem se eu falar-vos como estou acostumado a falar nas praças, nas ruas, com meus amigos e conhecidos. É a primeira vez que venho a um tribunal, e o linguajar que usam aqui me é completamente desconhecido. Na verdade, foram tão exímios os que falaram antes de mim que quase convenceram-me de minha culpa. Além disso, não tenho, como meus acusadores afirmam, o dom das belas palavras: não sou um orador, não sou um político. Manda a lei que eu me defenda. Farei isso, apesar de achar que, por mais que fale, o estrago que essas calúnias fizeram em vossos corações nunca seja reparado. Mas cumpre obedecer a lei e apresentar a defesa.

Acusam-me de pesquisar indevidamente a que há debaixo da terra, morada dos mortos, o Hades sombrio, e também o que se passa no céu, território dos deuses. Ora, cidadãos Atenienses, meus acusadores querem que vós acrediteis que eu seja um físico, esses homens que a turba persegue em todas as cidades, por dizerem que o princípio de tudo está na água ou no ar, no fogo ou no pensamento, ou então que o Sol é apenas uma pedra incandescente suspensa no éter, ou coisa que o valha, e não o divino Hélio carregando a luz em seu carro atrelado a cavalos alados. Meus amigos, não sou Anaxágoras, aquele que vós quase matastes por afirmar algo parecido. Não acredito no que Anaxágoras prega, apesar de também não desejar sua morte. Creio nos deuses da cidade tanto quanto vós, Atenienses, e não me preocupo em investigar essas coisas. Cumpro as obrigações e os sacrifícios sagrados. No entanto, existe, sim, um estudo ao qual me dedico, uma outra ciência, mais importante que todas as demais, e é isso o que preciso explicar.

Coro:

Sócrates! Estás a ponto de dar um passo fatal. Ainda há tempo para recuar, tempo para suster a marcha. Tuas palavras serão setas, punhais no orgulho dos homens.

Mas, por que não hesitas, Sócrates?

Sócrates:

Por favor, compatriotas, ouçam com atenção o que direi. Todas essas acusações contra mim vêem de uma atividade que teve inicio há muito tempo. Atenção, portanto, Atenienses.

Quando eu ainda não era velho, quando vários de vocês ainda não tinham nascido, meu amigo Querefonte, em peregrinação ao templo de Delfos, onde habita o deus Apolo, perguntou para a Pítia, a sacerdotisa do deus, tomada pela presença da divindade, se havia alguém - e aqui, peço novamente, não se revoltem, Atenienses - Querefonte perguntou se havia alguém mais sábio que Sócrates. E ela respondeu que... não.

Compatriotas, quando soube do oráculo, depois do grande espanto ter passado, comecei a refletir sobre o que o deus quis dizer com tais palavras, qual o sentido oculto de ter declarado-me o mais sábio dentre os homens, pois sabia que não o era.

Depois de muito pensar, decidi fazer, por conta própria, uma investigação. Queria compreender o sentido do oráculo, ou então, descobrindo alguém mais sábio do que eu provar - eis minha presunção - que o deus havia errado...

Coro:

Ó Sócrates, mergulhas no serviço do deus! "Não há homem que veja realizados todos seus anseios: são eles duramente contidos pelos limites do impossível. A ignorância humana nos inspira vãs esperanças, mas é a vontade dos deuses que tudo determina." 3

Sócrates:

E assim fui falar com um daqueles que todo o povo, que todos vocês, Atenienses, acreditavam ser sábio, para poder contrariar o deus e dizer: 'Eis aqui um homem que possui mais sabedoria do que Sócrates'. E o homem que eu escolhi era um político.

Coro:

Sócrates! Tuas palavras selam teu destino. Uma frágil linha está para ser rompida. Mas, por que teu rosto está tão sereno? Como consegues caminhar sorrindo a beira do abismo?

Sócrates:

Atenienses, é triste afirmar isso, mas esse homem, um nobre político que aos olhos de muitos, e principalmente aos seus próprios olhos, parecia tão sábio, revelou-se, na verdade, um ignorante. Conversando com ele, percebi que tudo aquilo em que acreditava não passava de idéias sem justificativas, arremedos de pensamento.

Depois dos políticos, fui aos artistas, aqueles considerados os maiores dentre vós, para com eles aprender o que não conhecia e refutar o oráculo. Mas, Atenienses, é preciso afirmar que qualquer outra pessoa saberia explicar melhor suas obras de arte do que eles mesmos. Não encontrei sabedoria naqueles que fazem poesia, ou pintam graciosos quadros, ou esculpem as obras que admiramos sinceramente. Há um dom natural, um belo dom natural, mas não o conhecimento do belo. E erram tais pessoas quando, por serem tão hábeis, imaginam saber para além de sua arte. E o mesmo erro fui achar junto aos artesãos, que de fato sabiam muito mais que eu, que nada sei, mas acreditavam saber também vários outros assuntos dos quais não podiam fazer a mínima idéia. Perguntei-me, então, se preferiria ser como sou, sem a sabedoria e também sem a ignorância deles, ou possuir deles ambas as coisas. E notei que me agradava ser como sou.

Coro:

Não pedes perdão, Sócrates? Não recuas? Dizes ainda estar contente consigo próprio, diante desses homens tão descontentes com tuas palavras?

Sócrates:

E qual foi minha conclusão, compatriotas? Pensei que tanto eu como todos eles nada sabíamos, entretanto - e aí talvez esteja posto o segredo do oráculo - eles acham que sabem alguma coisa e não sabem, enquanto eu não afirmo saber o que não sei. A única sabedoria que ouso dizer possuir é saber que nada sei.

Coro:

Falando com todos, livremente, em qualquer lugar, foste hábil em ferir o orgulho de muitos, Sócrates. E o orgulho ferido sempre cobra suas dívidas...

Sócrates:

É daí portanto que vêm, Atenienses, as acusações infundadas: do orgulho ferido. Essa é também a origem da fama de sábio. Aqueles que me ouvem conversando e confundindo os outros ao mostrar sua ignorância, acham que sou sábio no assunto em que os confundo. Além disso, os jovens que me acompanham também põem-se a interrogar as pessoas, e a juventude, compatriotas, em qualquer tempo ou lugar está sempre ansiosa pela verdade. Assim, esses jovens descobrem uma multidão de homens que supõem saber alguma coisa, mas nada sabem. Por tal motivo, esses que os jovens examinam ficam irritados comigo e começam a dizer que existe "um tal Sócrates" que corrompe a mocidade. Quando perguntamos "como" ou "por quê?". não tem o que dizer, então afirmam, como fazem com qualquer filósofo, essas balelas: descrer dos deuses da cidade, negar a divindade e outras bobagens.

Aí está a origem das acusações. Essa é a verdade, Atenienses, e eu sei que não será fácil apagar as calúnias que esses homens espalharam. Mas de qualquer modo, eis aí minha defesa.

Coro:

Agiste certo, Sócrates? Poderias ter feito de outro modo? Agora, sentes que tua vida pesa tanto como uma pluma, levada por qualquer brisa, frágil como o graveto prestes a ser quebrado pela bota do soldado. Disseste a estes homens o que eles não queriam ouvir, não pediste desculpas, não te inclinaste. E era só isso o que queriam, Sócrates. Ah, Sócrates! Preferiste agir como sempre agiste, e agora esteja pronto para o veredicto.

Mas, qual é o valor de uma vida traída?

Os maus presságios se condensam no ar...

Arauto:

Os juizes irão votar. Sócrates, sabes que a acusação pede a pena de morte. Nada mais tens a falar?

Sócrates:

Neste momento, alguém poderia perguntar se não me arrependo de ter me ocupado com algo que me coloca diante da morte. A esse eu respondo que um homem deve levar em conta apenas um aspecto de seus atos: se o que faz é justo ou não. A minha atividade não é outra que conversar com todos, persuadindo as pessoas a não se preocuparem tanto com o corpo e com as riquezas, mas antes com a alma, pois é só a partir da virtude que alcançamos a felicidade. Se agindo assim corrompo a juventude, então tais preceitos seriam nocivos, o que é um absurdo. Por tudo isso, Atenienses, quer me condenem a morte, quer me deixem partir, não hei de fazer outra coisa, ainda que tenha de morrer muitas vezes.

Coro:

Corajoso Sócrates! O homem de valor morre uma única vez, mas o covarde morre muitas vezes antes de morrer...

Arauto:

Que o júri delibere, e que a veredicto seja justo, para honra do tribunal heliasta e para honra de Atenas.

[bate com o cajado. As luzes se apagam, ao fundo ouve-se um ruído de discussão)

Coro [ no escuro]:

Qual será o destino deste homem? Ah, por que ainda perguntamos, se nosso coração já está oprimido por uma certeza que não ousamos expressar? Talvez seja destino dos homens matar a todos os que se elevam acima da massa informe, do grande rebanho que lentamente caminha sem saber para onde. Ah, Sócrates! Ousaste perguntar pelo caminho correto e, pior, tiveste a coragem de buscar segui-lo.

Qual o preço que pagará por isso?

Qual?

[a música aumenta. Ouve-se uma voz em off:]

"Culpado. Culpado por corromper a juventude e zombar dos deuses da cidade. Culpado. A pena é a morte."

[A música cessa, a luz volta. Sócrates no meio do palco]

Sócrates:

Caros irmãos Atenienses que me condenaram, talvez achem que se eu houvesse me empenhado mais na minha defesa, pudesse ter escapado. Engano! Minha condenação veio não por falta de empenho, mas por me recusar a dizer o que gostariam de ouvir, súplicas e lamentos, e muitas outras coisas que estão acostumados a ouvir daqueles que imploram perante vós. Quantos homens não trouxeram aqui mulher e filhos, fazendo cenas de causar vergonha, como se fosse um horror terem de morrer, como se houvessem de ser imortais se vós não os condenásseis à morte. Não é tão difícil escapar da morte assim: mais difícil e escapar da maldade e da vileza. Se houvesse feito algo parecido, não conseguiria viver, definharia e me extinguiria, porque tal coisa não é digna de mim. Guardem o que lhes digo: se imaginam que matando homens evitarão que os critiquem por sua vida de ignorância e vício, estão enganados: aprendam que em vez de tapar a boca dos outros é necessário preparar-se para ser o melhor possível. Para vós, que me condenastes, bastam essas palavras.

Coro:

"Agora, a infelicidade dos bons faz a felicidade dos maus, que governam com leis perversas. Desaparece a nobreza de espírito, a desmedida e a vileza triunfam sobre a justiça." 4

Sócrates:

Aos que me absolveram, deixo os pensamentos de quem se encontra nos umbrais da morte: vós também, senhores juizes, devem se preparar para a morte tendo a certeza que não há, para o homem bom e virtuoso, nenhum mal, quer na vida, quer depois dela, e os deuses estão sempre atentos ao nosso destino. Guiem suas vidas pela virtude, que todo o resto virá naturalmente.

É chegada a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem segue o melhor caminho, se eu, se vós, é segredo para todos, menos para a divindade.

Coro:

O que fizestes, Atenienses ? O que fizemos? "Matastes, matastes o rouxinol das Musas, a quem ninguém magoou!" 5 Mataste vosso filho dileto, Atenas, e, imitando-te, continuamos ainda hoje a matar, se não de uma vez, mas aos poucos, todos aqueles que não são como nós, que não marcham conosco e não partilham de nossas passadas.

Guardem a lembrança de Sócrates no fundo escuro de suas almas.

[Pano]


* Realizado com os alunos do primeiro ano de Pedagogia (2002) da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Responsável: Marcos Sidnei Euzebio.

Notas:

1) Aristófanes, Os Cavaleiros, 581-585, trad. de Adriane Duarte.

2) Sólon, Elegia às Musas, 1, 65, trad. Gilda Naécia M. de Barros.

3) Teógnis, I, 135, 140, trad. nossa.

4) Teógnis, I, 289-292, trad. nossa.

5) Eurípides, Palamedes, frag, 588 Nauck, in D.L., 44, trad. Mario da Gama Cury.

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